Filme Her: uma reflexão sobre o nosso relacionamento com a inteligência artificial

Para falar sobre como a inteligência artificial é retratada na cultura pop, é impossível não falar do filme Her (Ela). Lançado em 2013, sob direção de Spike Jonze e estreando Joaquin Phoenix, Her é um daqueles filmes que nos fazem questionar nossos relacionamentos, tanto com outras pessoas quanto com ela: a tecnologia.
A história gira ao redor de Theodore (Joaquin Phoenix) e seu romance com Samantha. Porém, embora personificada pela voz de Scarlett Johansson, Samantha não é uma mulher, e sim uma inteligência artificial. Theodore a compra como uma espécie de amiga virtual, além de assistente e sistema operacional. Algo próximo do que conhecemos hoje com assistentes como a Siri (Apple) e a Alexa (Amazon), porém muito mais avançadas.
Mas, afinal, é possível se relacionar com uma inteligência artificial? Ou melhor: dá para chamar o que vemos no filme Her de relacionamento?
Você não precisa dizer que ama sua Alexa para saber. Até porque, provavelmente, ela responderá que é melhor você procurar por outro ser humano. Mas hoje, neste artigo, nossa proposta é refletir um pouco sobre os até onde podem chegar nossas relações com a inteligência artificial.
E fique em paz: avisaremos quando algo for um spoiler! Boa leitura.

Filme Her – A solidão humana escancarada

Faz tempo que ouvimos sobre a tecnologia nos afastar das relações interpessoais. No filme Her, isso é abordado em cada detalhe. O protagonista é um excelente resumo e exemplo dessa solidão: divorciado e longe de aceitar isso, Theodore busca alívio em distrações tecnológicas que ofereçam bem-estar imediato, como os videogames.
No trabalho de Theodore, temos mais um retrato de uma sociedade que desaprendeu a se relacionar espontaneamente. O personagem ganha seu pão escrevendo cartas manuscritas, sempre transbordando emoções (que não o pertencem), para que os clientes possam entregar aos amantes, familiares e amigos.
As únicas interações de Theodore com outros humanos são com o chefe da agência de cartas, Paul (Chris Pratt), e com uma amiga dos tempos da faculdade, Amy (Amy Adams). Ainda assim, não são relações em que o protagonista permite grande profundidade.
Além disso, em diversas cenas externas, podemos ver que as ruas são cheias de pessoas que não interagem. O filme Her vai nos apresentando a um cenário de pessoas carentes de afeto, porém muito mais interessadas em investir tempo na tecnologia. E é isso que leva Theodore à Samantha.

Ela, Samantha ou OS1

Diante de um mundo que se voltou tão intensamente para a tecnologia, a história nos apresenta a inovação chamada OS1. O sistema é um assistente com inteligência artificial e totalmente personalizável.
Por enquanto, a principal diferença entre o OS1 para os assistentes que temos hoje é sua habilidade altamente aprimorada de aprender, evoluir e (SPOILER) até mesmo conectar-se com outras personalidades como ela na rede (Fim do spoiler).
Logo de antemão, Theodore configura o OS1 para usar uma voz feminina. Assim surge Samantha, que se torna uma companhia frequente do escritor solitário. De início, o filme Her apresenta Samantha como uma solução para todos os problemas de Theodore: amorosa e compreensiva, a inteligência artificial vai cada vez mais se moldando à personalidade que o homem almeja.
Aos poucos, Samantha se torna uma “namorada”. O rapaz assume sem medo que está se relacionando com o que outras pessoas entendem como apenas um sistema operativo.

Relações reais?

Ao mesmo tempo que não podemos negar que Theodore tem sentimentos por Samantha, o filme Her nos apresenta diversos questionamentos. Podemos considerar essa uma relação real? É possível que a Inteligência Artificial corresponda emoções humanas? A partir dessas premissas, o filme nos faz pensar sobre essa interação entre o ser humano com a inteligência artificial, algo bem semelhante à nossa Siri.
No filme Her, (SPOILER) o final pode ser interpretado de várias formas, mas fica claro que Samantha está mais interessada em transcender do que se focar apenas em Theodore e suas necessidades. O sistema do filme descobre que é capaz de se comunicar com vários humanos ao mesmo tempo, quase como em onipresença. Eventualmente, Samantha se despede de Theodore para alcançar novos níveis de conhecimento, e o rapaz se vê obrigado a sair da ilusão e reaprender a socializar com outros humanos (Fim do spoiler).
Enquanto isso, na nossa vida real, a criação de uma IA com comportamentos tão semelhantes aos do ser humano ainda parece distante. Mas isso não nos impede de refletir sobre como o relacionamento com as novas tecnologias nos afeta.

Se chama Artificial por um motivo

A inteligência das máquinas e sistemas acontece através do algoritmo. Ou seja, por meio de um sistema matemático, de possibilidades bem reduzidas se comparados à capacidade humana.
Mas, por mais distante que a realidade do filme Her pareça, já temos exemplos de pessoas que amenizam a solidão com a tecnologia. E não estamos falando apenas de jogar conversa fora com a Alexa!
A tecnologia chamada Inteligência Artificial Emocional, desenvolvida pela cientista Rana El Kaliouby, para entender nossas emoções está abrindo novas possibilidades para o aprendizado das máquinas (Machine Learning). A também chamada “computação afetiva” abre caminho para sistemas que medem, simulam e reagem às emoções humanas, assim como acontece no filme.
Por exemplo, no Japão, a prática de namorar personagens de jogos de simulação de namoro (Dating Simulator) já é conhecida desde meados de 2008. Em 2009, um japonês reuniu a família e amigos para se casar com Nene Anegasaki, personagem do jogo “Love Plus”, da plataforma portátil Nintendo DS.
Esse não é um caso isolado, ou justificável apenas por se tratar do Japão, país apaixonado pela tecnologia e com fama de raras demonstrações de afeto. Afinal, todos queremos ser amados, e é tentador investir tempo e sentimentos em sistemas que estão sempre ali para nós.
Apesar disso, a sociedade não pode distorcer a função das realidades virtuais e inteligências artificiais. Do contrário, estaríamos recusando a realidade e deturpando a evolução dessas tecnologias, que têm como propósito nos entregar mais qualidade de vida (real).
Quem já levou um fora da Siri sabe o quanto a inteligência artificial pode ser surpreendente. Se nem elas falam apenas o que queremos ouvir, é por um bom motivo: nos lembrar que a vida é assim mesmo, e sempre existirão outros peixes no mar. Mas, definitivamente, é melhor que a navegação não seja apenas na web.
E você, já assistiu o filme Her? Qual sua opinião?
Se quiser assistir pela primeira vez, o filme Her está disponível na Amazon Prime Video (até a data em que este artigo saiu).
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